"Este Canto é Todo Seu - Zacarias Sitônio Seu Lugar, Sua Gente". Este é o título do livro de Maria Angela Sitônio Wanderley, uma princesense de sete costados que se dispôs a escrever sobre a vida de seu pai contextualizando a História de sua terra, Princesa o que, num realce de aspectos vários, dá à obra significante importância pela clareza do relato e, principalmente, pela abrangência quando aborda temas diversos de uma época repleta de acontecimentos de grande relevância para a historiografia paraibana tendo como pano de fundo Princesa, no dizer do juiz aposentado, Valdério Vasconcelos: O chão mais histórico da Paraíba.
Na obra, Mariângela (como é chamada por amigos e familiares), discorre sobre a vida do pai, Zacarias Sitônio que foi prefeito de Princesa, deputado estadual, Tabelião, comerciante, industrial, intelectual, homem de imprensa e outras coisas mais. Cidadão inteligente, de excelentes princípios, cordato, um gentleman que contribuiu com a construção da história princesense. Zacarias, mesmo muito jovem, na qualidade amigo do coronel Zé Pereira, vivenciou os acontecidos de 1930 o que o tornou uma das testemunhas oculares mais bem informadas sobre aquele evento.
Cauteloso, Zacarias preocupado com as feridas ainda abertas, reservou-se, ao longo de sua vida, em falar sobre os fatos de Guerra de Princesa. Certa vez, na década de 1980, ainda muito jovem, abordei "seu" Zacarias para, em satisfação de minha curiosidade, me informar sobre os acontecidos de 30, ao que ele me respondeu: "Aqui aconteceram coisas que não podemos relatar sob pena de sermos queimados na fogueira. Ainda hoje somos impedidos de falar para não causarmos mal-estares aos outros". De sorte que ele relatou à filha, o que ela reproduz em seu trabalho literário que ora está sendo lançado aqui em Princesa.
No livro, Mariângela fala da vida do pai contextualizando a política partidária; a Revolta de Princesa e fatos ocorridos envolvendo sua família. Discorre sobre as origens de sua família e destaca aspectos da cidade de Princesa, o que que faz com sentimento saudosista, porém sem nenhuma cavilação. O relato é objetivo, preciso e fiel quanto aos fatos históricos porque a fonte [Zacarias] lhe abasteceu de informações inéditas que, mesmo quase cem anos depois, trazem luz para os que escrevem sobre o tema. Mesmo depois de tanto tempo, faltava a manifestação desse importante depositário em contributo para a história da Terrinha.
A despeito de a proposta inicial ser a biografia do pai, um personagem rouba a cena: Hermosa. Na qualidade de companheira do biografado, esta que é mãe da escritora e de suas irmãs: Marta e Margarete, se apresenta como uma mulher fora do seu tempo. Já na década de 1950, Hermosa foi clarividente quando tomou a decisão de sair de Princesa para a capital, João Pessoa, em busca de melhores condições para educar as filhas. Uma mulher que gostava de ler, queria dirigir carro e que tomou as rédeas da formação familiar o que, mesmo sob os auspícios de Zacarias, nesse mister, era dela a decisão: Zacarias supria, Hermosa decidia.
Não é possível falar sobre o livro de Mariângela numa simples resenha como esta. Para melhor defini-lo seriam necessárias muitas páginas. A obra, em boa parte baseada na troca de correspondência entre Zacarias e Hermosa, relata alegrias e dissabores familiares; coisas da vida cotidiana da Princesa de antanho e mais. Contudo, pela sua abrangência, é quase definitiva sobre os acontecidos de 1930 em Princesa. Escrita sem rebuscamentos e, principaimente, repito, sem cavilação, Mariângeia nos presenteia com um trabalho seminal sobre as coisas da nossa Terra. Coisas do seu lugar e sua gente que só Zacarias sabia. Um livro indispensável.
Em tempo: O lançamento da obra em tela ocorrerá, em Princesa, no palacete dos "Pereira", às 19h00 na próxima sexta-feira dia 3.


Nenhum comentário:
Postar um comentário